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Home Cidades

Eletra entrega a Ministro das Cidades proposta para financiamento de ônibus elétricos feitos no Brasil

17/09/2026
in Cidades, São Bernardo, Transporte e Trânsito
Eletra entrega a Ministro das Cidades proposta para financiamento de ônibus elétricos feitos no Brasil
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A Eletra entregou ao ministro das Cidades, Vladimir Lima, uma proposta para a criação de mecanismos de financiamento destinados à compra de ônibus elétricos produzidos no Brasil, com a inclusão de municípios pequenos e médios. O documento foi apresentado nesta quarta-feira, 16 de setembro de 2026, durante uma visita do ministro à fábrica da empresa em São Bernardo.

A proposta pretende ampliar o acesso de cidades com menor capacidade financeira aos ônibus elétricos e, ao mesmo tempo, direcionar recursos para veículos fabricados no País. A Eletra, entretanto, não divulgou valores, fontes dos recursos, taxas de juros, prazos, critérios de participação ou uma estimativa da quantidade de ônibus que poderia ser financiada.

Proposta foi entregue durante visita à fábrica em São Bernardo.

O ministro das Cidades conheceu os processos industriais da Eletra e as tecnologias empregadas pela empresa na eletrificação de ônibus.

Durante o encontro, representantes da fabricante e do Governo Federal discutiram alternativas para ampliar a utilização de veículos elétricos nos sistemas municipais de transporte coletivo.

Segundo a Eletra, a proposta entregue ao Ministério das Cidades prevê instrumentos de crédito que permitam a participação de municípios pequenos e médios, que normalmente possuem menor capacidade de endividamento, equipes técnicas reduzidas e menor escala para realizar compras.

O material divulgado pela empresa não esclarece se os financiamentos seriam contratados diretamente pelas prefeituras, pelas empresas operadoras, por consórcios intermunicipais ou por sociedades criadas especificamente para comprar e disponibilizar os veículos.

Também não foi informado se a proposta contempla somente os ônibus ou se poderia financiar carregadores, instalações elétricas, transformadores, adaptações de garagens e sistemas de gerenciamento de energia.

Ministério das Cidades cita R$ 67 bilhões para mobilidade urbana

O ministro das Cidades, Vladimir Lima, disse que o Governo Federal está investindo mais de R$ 67 bilhões na modernização da mobilidade urbana em diferentes regiões do País.

“A mobilidade urbana é um dos pilares essenciais na construção de cidades mais sustentáveis e socialmente justas que buscamos no Governo Federal. Por isso, estamos investindo mais de R$ 67 bilhões para promover a modernização da mobilidade urbana em todo o País”, declarou o ministro das Cidades, Vladimir Lima.

O valor citado reúne diferentes ações federais de mobilidade urbana e não corresponde, necessariamente, a uma linha exclusiva para ônibus elétricos. O comunicado também não informa quanto desse montante já foi contratado, quanto foi executado e qual parcela poderia atender à proposta apresentada pela Eletra.

A eventual criação de uma nova linha dependerá da análise do Ministério das Cidades e da definição das instituições financeiras, das fontes orçamentárias e das condições de contratação.

Fabricante relaciona financiamento à manutenção de empregos e fornecedores no Brasil

A presidente da Eletra, Milena Braga Romano, afirmou que a expansão dos ônibus elétricos pode ser utilizada como parte de uma política industrial, desde que os investimentos alcancem a produção e a cadeia de fornecedores instaladas no País.

“A eletromobilidade representa uma oportunidade de transformar o transporte público brasileiro e, ao mesmo tempo, fortalecer a indústria nacional. Temos tecnologia desenvolvida no País, capacidade produtiva instalada e uma cadeia que gera empregos qualificados e impulsiona a inovação. Ampliar o acesso dos municípios a esses veículos significa também investir no desenvolvimento econômico e industrial do Brasil”, disse a presidente da Eletra, Milena Braga Romano.

A executiva defendeu que cidades de menor porte sejam incluídas nos programas de eletrificação.

“Acreditamos que os pequenos municípios não podem ficar à margem desse processo. Com instrumentos adequados de financiamento, é possível acelerar a renovação das frotas, reduzir emissões e, ao mesmo tempo, gerar empregos, renda e oportunidades para toda a cadeia da eletromobilidade nacional”, afirmou a presidente da Eletra, Milena Braga Romano.

As declarações refletem a posição da fabricante. A proposta ainda precisará ser analisada pelo Governo Federal e não há, até o momento, anúncio de criação da linha, definição de orçamento ou abertura de inscrições para municípios e operadores.

Custo inicial ainda limita a compra de ônibus elétricos

A necessidade de financiamento está diretamente relacionada à diferença entre o preço inicial de um ônibus elétrico e o de um veículo a diesel.

Como mostrou uma reportagem especial do Diário do Transporte, o ônibus elétrico pode custar aproximadamente três vezes mais na aquisição, embora apresente potencial de economia com energia e manutenção durante a vida útil.

Planilhas da SPTrans analisadas pelo Estudo Nacional de Mobilidade Urbana indicam gasto médio mensal de aproximadamente R$ 25 mil com diesel por ônibus, diante de cerca de R$ 5 mil em eletricidade para um veículo elétrico equivalente. Os resultados variam conforme quilometragem, tarifa de energia, modelo do ônibus, condições das linhas e infraestrutura utilizada.

A diferença entre o investimento inicial e os custos posteriores torna necessário avaliar o custo total de propriedade, considerando compra, juros, energia, manutenção, carregadores, adaptações nas garagens, baterias, disponibilidade da frota e valor residual.

Para municípios pequenos e médios, essas exigências podem representar uma barreira maior porque a compra de poucos ônibus não gera a mesma escala obtida em grandes licitações.

Financiamento precisa considerar ônibus, garagens e energia

Uma política de eletrificação não se limita à aquisição dos veículos. A entrada de ônibus elétricos exige planejamento das linhas, avaliação da autonomia, definição dos períodos de recarga e análise da capacidade da rede de distribuição de energia.

As garagens podem precisar de obras civis, novos cabos, transformadores, subestações e sistemas capazes de controlar a recarga simultânea de vários veículos. Dependendo da localização e da potência necessária, também pode ser preciso ampliar a conexão com a distribuidora de energia.

Em cidades pequenas, a escala reduzida pode diminuir a complexidade de implantação, mas também pode encarecer individualmente os equipamentos e dificultar a formação de equipes especializadas.

Por isso, programas de financiamento podem incluir alternativas como compras compartilhadas, consórcios de municípios, arrendamento de frota, separação entre propriedade e operação dos ônibus e contratos que reúnam veículos, infraestrutura e manutenção.

A Eletra não informou quais desses modelos foram incluídos no documento entregue ao ministro.

Conteúdo nacional ganha importância no debate sobre financiamento público

A proposta também coloca em discussão quais critérios devem ser adotados para definir se um ônibus é efetivamente produzido no Brasil.

O Estudo Nacional de Mobilidade Urbana estima que, consideradas as diferentes marcas comercializadas no País, aproximadamente 59% do conteúdo dos componentes dos ônibus elétricos analisados seja nacional. A Eletra afirma que seus veículos podem alcançar índices de nacionalização entre 95% e 98%, dependendo da configuração.

Os percentuais precisam ser avaliados a partir de critérios comuns, considerando não apenas a montagem do veículo, mas a origem da engenharia, dos sistemas de tração, dos controles eletrônicos, das baterias, dos carregadores, dos softwares e dos componentes de maior valor.

O Brasil ainda depende de importações em áreas importantes da cadeia, principalmente em componentes relacionados às baterias. Ao mesmo tempo, possui produção de chassis, carrocerias, motores elétricos, sistemas de tração, equipamentos de recarga e serviços de engenharia.

A utilização de conteúdo nacional como condição para financiamentos públicos pode estimular fornecedores instalados no País, mas os critérios precisam ser transparentes para preservar a concorrência entre fabricantes e evitar que os recursos sejam direcionados a uma única empresa ou tecnologia.

Mercado brasileiro chegou a 932 ônibus elétricos emplacados até agosto

O mercado brasileiro de ônibus elétricos aumentou em 2026. Entre janeiro e agosto, foram emplacados 932 veículos, número 82% superior ao registrado no mesmo período de 2025.

Somente no primeiro semestre foram 589 ônibus elétricos, diante de 306 unidades nos seis primeiros meses do ano anterior. Dos veículos registrados entre janeiro e junho de 2026, 476, o equivalente a aproximadamente 80%, foram produzidos no Brasil.

O mercado reunia nove fabricantes e 19 modelos no primeiro semestre. A ampliação da concorrência e da escala de produção pode contribuir para reduzir preços, mas a continuidade dos investimentos depende de encomendas regulares e de mecanismos de financiamento que ofereçam previsibilidade às cidades, aos operadores e à indústria.

Ônibus elétrico não substitui planejamento do sistema

A eletrificação pode reduzir emissões locais, ruído e gastos com energia, mas a tecnologia do veículo não resolve, isoladamente, problemas de frequência, atrasos, lotação, congestionamentos e falta de integração.

Os financiamentos precisam estar ligados ao planejamento da operação, com definição das linhas que receberão os veículos, disponibilidade de energia, capacidade das garagens e garantia de manutenção e peças durante toda a vida útil.

Para o passageiro, os resultados dependem de o ônibus chegar no horário, oferecer frequência adequada e estar integrado ao restante da rede. A troca da fonte de energia pode melhorar a viagem, mas precisa fazer parte de uma política mais ampla de recuperação e modernização do transporte coletivo.

 

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Diário do Transporte

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