“Ela gosta muito de estar em eventos assim, porque essa é a turma dela. Aqui ela se sente entre iguais, ela se vê também nas outras pessoas. Isso é pertencimento.” A declaração da moradora do bairro Baeta Neves, Elaine Cristina Batista, sobre a filha Maria Fernanda, de 19 anos, que é uma pessoa com deficiência intelectual. O sentimento dela era compartilhada pelas dezenas de mães e filhos que estavam na primeira Baladinha Inclusiva de São Bernardo, realizada neste sábado (26/09) no hall da Câmara Municipal. A atividade integra a programação da Semana Municipal da Pessoa com Deficiência e foi articulada pela Secretaria de Direitos da Pessoa com Deficiência e TEA de São Bernardo.
Usando roupas coloridas que remetiam à estética dos anos 1980 – tema da festa – Maria Fernanda dividiu a pista com outras crianças, adolescentes e adultos, cada um com a sua particularidade. Eram pessoas autistas, com Síndrome de Down, deficiências físicas e intelectuais, que naquela tarde tinham como única ocupação se divertir.
PARCERIA – O evento foi realizado pela Secretaria de Direitos da Pessoa com Deficiência e TEA em parceria com o Projeto Despertar da Inclusão, que reúne 90 famílias, entre atípicas e apoiadoras da causa. Fundado por Clarice Pereira, o grupo organiza atividades para as famílias e feiras de empreendedorismo, além de oferecer cursos de cuidadores, pintura de rosto, recreação, sempre com foco em lidar com pessoas com deficiência.
“Trabalhei como cuidadora e vi como essas famílias têm poucos espaços onde se sentem verdadeiramente confortáveis. Elas sentem os olhares de quem não entende a realidade de conviver com pessoas com deficiência, elas vêem os filhos não serem convidados para festinhas. Comecei montando um espaço de brincar na minha casa, mas a demanda cresceu e nós fomos ocupando os espaços, fazendo eventos em parques, onde conseguimos parceria”, contou Clarice.
O projeto está se organizando para se oficializar como uma ONG (Organização Não Governamental). “Nos eventos, as mães podem vir, vender seus produtos e gerar renda, trazer seus filhos, que vão estar com os recreadores. É uma forma de permitir que essa mãe, essa mulher, também possa fazer algo por ela, também consiga fazer outras coisas além de cuidar dos filhos”, contou.
Foi Clarice quem acolheu a moradora do Bairro dos Casa, Roberta Leia Oliveira. Mãe de quatro filhos, o mais velho, que tem TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), também é autista nível 3 de suporte. Diagnosticado aos 2 anos, a criança, que hoje tem 9, demanda muita atenção e além do marido, Roberta tem pouca rede de apoio. “No dia que vim para a reunião de organização do evento de hoje, foi a primeira vez que saí de casa sem um dos meus filhos, em três anos”, contou, sem conseguir conter a emoção.
Roberta vende semijoias e camisetas, em parceria com uma prima, que vende brinquedos pedagógicos e objetos terapêuticos em 3D. “Hoje meu filho está com meu marido, mas no próximo evento, pretendo trazê-lo. É uma sensação muito boa poder estar fazendo algo por mim e quero muito conseguir vir mais vezes”, contou. “Fui muito acolhida pela Clarice, vi que a grande maioria das mães está no mesmo barco que eu e isso dá um ânimo novo”, completou.
A secretária adjunta da Secretaria de Direitos da Pessoa com Deficiência e TEA, Joyce Quintino, destacou que parcerias entre o poder público e a sociedade civil são fundamentais para promover a inclusão. “Essas pessoas são quem sabem as dificuldades, os desafios, então temos que nos aproximar, ouvi-los, para que possamos oferecer o que eles precisam”, completou. “Hoje eles estão exercendo o seu direito à diversão, à integração, à socialização e isso é muito importante”, concluiu.
Foto: Rafael França/PMSBC










