A Eletra Industrial, de São Bernardo, quer colocar o Brasil na rota mundial da eletrificação dos sistemas de ônibus, mas não importando ideias e soluções, e sim tornando o país um dos maiores exportadores de tecnologia e produtos. Tudo criado aqui para o mundo.
Após liderar o mercado nacional de ônibus elétricos, a fabricante visa inicialmente a América Latina já com possibilidade de exportações para outros continentes.
Contam as estratégias ao criador e editor-chefe do Diário do Transporte, Adamo Bazani, a diretora-presidente da empresa, Milena Braga Romano, e a diretora comercial, Ieda Oliveira.
São diversas frentes para alcançar este objetivo.
Uma delas passa por investimentos em ampliação da capacidade produtiva, triplicando o volume possível de mil ônibus por ano para cerca de três mil.
A atual planta de São Bernardo vai ser expandida e, para dar conta do crescimento de demanda por ônibus elétricos previsto, será fundada uma segunda fábrica, que vai funcionar ao mesmo tempo que a sede principal, na rodovia Anchieta.
Milena Romano estima que, com isso, sejam criados pelo menos mil empregos no Brasil, o que mostra, segundo a empresária, que, além de benefícios ambientais e econômicos, ao colocar o País na chamada “neoindustrialização”, a eletrificação dos sistemas de ônibus traz impactos sociais positivos.
Com certeza, eu acho que a reindustrialização do Brasil vai começar com a eletromobilidade, com a Eletra em especial, que é uma fabricante 100% nacional, com DNA brasileiro, com engenharia brasileira, mundial brasileira, tecnologia brasileira, e 93% do nosso produto é nacionalizado. Então, a única coisa que vem de fora é o lítio, mas a bateria é feita no Brasil, é montada, tecnologia, tudo brasileiro. Então, isso é uma grande chance da gente exportar esse conhecimento também para a América Latina, até a Europa, Estados Unidos, o que nós estamos desenvolvendo aqui dentro do Brasil. – disse a empresária.
O próprio ENMU (Estudo Nacional de Mobilidade Urbana), elaborado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) em parceria com o Ministério das Cidades, apontou que os ônibus elétricos serão peças-chave para a redução de custos operacionais, com menores tarifas para passageiros e maior retorno para as empresas.
Já outra frente são os produtos, seja ampliando a gama de modelos de ônibus elétricos, seja aperfeiçoando a tecnologia.
Segundo Ieda Oliveira, na Lat.Bus 2026, feira especializada no setor de transportes, que ocorreu entre os dias 11 e 13 de agosto na capital paulista, entre os lançamentos para este ano está uma nova geração de veículos com toda a parte eletrônica da Eletra e chassis inteligentes, que, com sensores, conseguem identificar o momento de operação e o tipo de relevo, esforço e lotação e dosar a energia elétrica a ser utilizada exatamente naquele instante.
Além disso, a empresa vai fortalecer a presença da opção E-Trol, cuja tecnologia, conhecida como IMC (In-Motion Charging, ou carregamento em movimento), permite que o ônibus receba energia dos fios ou em campos magnéticos enquanto circula, carregue suas baterias e, posteriormente, percorra outros trechos desconectado da rede.
“Não é um fio trol, é uma rede. É uma rede de recarga, então ele para numa marcação da via, aperta um botão, automaticamente essas alavancas pneumáticas se desprendem do ônibus, você tem uma guia na rede, ele conecta a rede, a partir dali ele usa a energia da rede para carregar as baterias e se deslocar. Então você aumentou a autonomia, porque esse carro, mesmo com banco pequeno, ele vai poder rodar 400 quilômetros por dia, porque ele está sempre carregando a bateria. Eu não tenho um carregador dentro da garagem, o que é uma vantagem grande”. – explica, dizendo ainda que entre as vantagens estão a necessidade de menores bancos de baterias nos veículos e, por carregar no trajeto, o modelo dispensa ou reduz a infraestrutura nas garagens.
A executiva ainda citou mais novidades, como um sistema de carregamento de oportunidade em 15 minutos, que completa a carga das baterias durante a jornada de operação, aumentando a autonomia e reduzindo também a necessidade de grandes infraestruturas nas garagens.
Para o ano de 2027, a ambição é ainda maior. A Eletra anunciou a entrada no segmento de rodoviários e fretamento elétricos.
No entanto, além de focar no fretamento contínuo, a Eletra quer atender o segmento de linhas rodoviárias regulares de 350 km.
Para isso, desenvolve um sistema que permite a utilização de bagageiros. O primeiro passo é o fretamento e a meta de liberar áreas para bagageiros com o posicionamento de parte das baterias na traseira dos ônibus.
A configuração que permite a mesma potência e capacidade energética que um articulado e um superarticulado em um midiônibus (micrão), para operação tranquila em áreas de periferia, já é uma realidade da empresa que opera em São Paulo e, agora, a ideia é expandir a solução para outras cidades.
GAMA DE ÔNIBUS E CHASSIS PRODUZIDOS/INTEGRADOS PELA ELETRA EM SÃO BERNARDO DO CAMPO
A transformação da Eletra em montadora de chassis representa uma mudança importante também na forma de comercialização dos produtos. Além de fornecer o ônibus completo e continuar com a integração da tração elétrica, a empresa passou a oferecer chassis elétricos com a própria marca e CAT (Certificado de Adequação à Legislação de Trânsito), assumindo a responsabilidade técnica pelo produto.
A partir de 2026, esse processo avançou com maior participação da engenharia da Eletra nos módulos elétricos e eletrônicos, controles e softwares do chassi. As plataformas mecânicas continuam envolvendo parceiros tradicionais da indústria, mas a empresa amplia a parcela do desenvolvimento e da integração realizada na fábrica de São Bernardo.
A gama não possui uma única especificação fechada de bateria, lotação ou autonomia para todas as aplicações. Os números podem variar conforme carroceria, configuração interna, quantidade de baterias, piso, número de eixos, perfil da linha, relevo e estratégia de recarga. A relação abaixo consolida as configurações comerciais e as novas famílias de chassis apresentadas pela fabricante.
Produto/configuração Comprimento Piso/configuração Aplicação principal Tração e recarga Características
e-Bus 10 m / MIDI Elétrico cerca de 10 m a 10,1 m Piso alto Alimentadoras, bairros, periferias e linhas de menor demanda 100% elétrico a bateria A nova configuração apresentada na Lat.Bus 2026 utiliza carroceria Mascarello Horizon. Dependendo da planta, transporta aproximadamente 55 a 58 passageiros e foi dimensionada para operações severas e fortes aclives.
e-Bus 12,1 m / Básico cerca de 12 m a 12,1 m Piso alto ou piso baixo, conforme projeto Urbano convencional 100% elétrico a bateria Faz parte da família de urbanos da Eletra. A configuração pode variar de acordo com os requisitos de cada sistema.
e-Bus 12,5 m 12,5 m Piso baixo Urbano convencional e estrutural 100% elétrico a bateria Configuração utilizada em diferentes cidades brasileiras. A capacidade pode chegar a aproximadamente 80 passageiros, dependendo do arranjo interno.
e-Bus 12,8 m / Padron cerca de 12,8 m Piso baixo Linhas estruturais e operações padron 100% elétrico a bateria Integra a gama de médios urbanos da fabricante e está inserido na faixa de chassis que pode receber diferentes configurações conforme a operação.
e-Bus 15 m 15 m Piso alto ou piso baixo Linhas urbanas de maior demanda e corredores 100% elétrico a bateria Configuração de três eixos, com capacidade próxima de 95 passageiros em determinadas versões. A autonomia depende da aplicação e da quantidade de baterias.
Eletra Articulado / Superarticulado eBRT aproximadamente 21 m a 23 m Piso alto ou piso baixo Corredores, BRTs e linhas de alta capacidade 100% elétrico a bateria A versão de 21,5 m com carroceria Caio e-BRT Millennium foi um dos destaques da Lat.Bus 2026. Há configurações para diferentes capacidades e padrões de embarque.
Chassi Eletra – família urbana aproximadamente 11 m a 13 m Diferentes configurações para básicos e padrons Projetos urbanos e encarroçamento por parceiros Chassi elétrico completo Família comercializada com marca e CAT Eletra. Em 2026, passou a incorporar mais módulos elétricos e eletrônicos, controles e softwares desenvolvidos ou integrados pela própria fabricante.
Chassi Eletra – articulado/superarticulado aproximadamente 21 m a 23 m Conforme o projeto Alta capacidade, corredores e BRT 100% elétrico a bateria Plataforma destinada aos veículos de maior porte. Nas novas gerações, a Eletra utiliza soluções específicas para elevada demanda de torque e operações em relevo severo.
E-Trol / IMC aproximadamente 19 m a 21,5 m nas configurações apresentadas em 2026 Piso baixo Corredores e sistemas com rede aérea Tração elétrica a bateria com recarga em movimento Pode operar conectado à rede e também fora dela. O carregamento durante a circulação permite reduzir o banco de baterias e a necessidade de concentrar toda a recarga nas garagens.
Além dos ônibus completos e chassis, o portfólio tecnológico da Eletra abrange trólebus, ônibus híbridos elétricos e o e-retrofit, pelo qual veículos pesados originalmente movidos a diesel podem ser convertidos para tração elétrica na fábrica de São Bernardo .
O rodoviário/fretamento elétrico de 12 metros anunciado durante a Lat.Bus 2026 não entra na tabela como produto corrente porque ainda está em desenvolvimento. A previsão informada pela empresa é de lançamento comercial em 2027, inicialmente para aplicações de fretamento e linhas rodoviárias de curta e média distância.
UM BREVE HISTÓRICO DA ELETRA
A trajetória da Eletra está diretamente ligada ao ABC Paulista e à experiência brasileira com transporte coletivo eletrificado.
A empresa surgiu em São Bernardo do Campo em 1999 e foi oficialmente inaugurada no ano seguinte, tendo desde o início como uma de suas principais características o desenvolvimento de sistemas de tração elétrica para veículos pesados com engenharia brasileira.
Um dos primeiros marcos foi justamente o desenvolvimento de ônibus híbridos elétricos. A tecnologia combinava a tração elétrica com geração de energia a bordo e surgiu em uma época na qual a eletrificação ainda estava distante de ocupar o espaço que hoje possui nas estratégias das montadoras de veículos pesados.
Na sequência, a Eletra ampliou a atuação com os trólebus e acumulou experiência em veículos elétricos submetidos diariamente às condições reais do transporte coletivo. A empresa passou por diferentes gerações de motores, inversores, sistemas de controle e eletrônica de potência até chegar às atuais configurações de ônibus 100% elétricos a bateria.
Na década de 2010, a fabricante avançou nos ônibus elétricos puros e também ampliou a atuação para projetos de eletrificação de veículos de carga e conversão de pesados. A experiência acumulada permitiu posteriormente estruturar uma família de e-Bus com diferentes comprimentos e capacidades, desde veículos menores para linhas alimentadoras até articulados e superarticulados de grande capacidade.
Outro passo importante ocorreu com a mudança para a unidade da Via Anchieta, em São Bernardo, que concentrou em maior escala os processos de eletrificação, integração dos sistemas de tração, baterias, controles e montagem.
Mais recentemente, a Eletra passou por outra transformação. Em 2025, começou a comercializar chassis elétricos completos com marca e responsabilidade técnica próprias. Em vez de receber necessariamente um chassi já identificado por outra montadora e realizar posteriormente a eletrificação, passou a receber plataformas mecânicas e concluir em São Bernardo uma parcela cada vez maior do veículo.
Em 2026, a estratégia ganhou uma nova etapa com a ampliação da participação da Eletra também nos módulos elétricos e eletrônicos e com os chamados chassis inteligentes, capazes, segundo a fabricante, de reconhecer condições da operação e ajustar a entrega de energia.
É nesta fase que a companhia anuncia também a ampliação da fábrica atual, uma segunda unidade industrial, entrada nos segmentos rodoviário e de fretamento e o objetivo de levar os produtos e a engenharia desenvolvidos no Brasil para outros mercados.
CONFIRA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA:
Eletra Lat.Bus 2026
ADAMO BAZANI
No Diário do Transporte, a gente conversa com a diretora-presidente da Eletra Industrial, Milena Romano. Diário do Transporte que acompanhou uma série de novidades da Eletra aqui na Lat.Bus. Ônibus rodoviários, chassis inteligentes, investimentos, dá uma geralzona pra gente.
MILENA ROMANO
Como você falou, tiveram várias novidades hoje na Lat.Bus. Nós estamos lançando uma nova história da Eletra. Uma ampliação da nossa fábrica, criação de uma nova fábrica para aumentar a capacidade produtiva.
Porque a gente vê que a eletromobilidade é uma realidade, não é mais um sonho. É uma coisa que já está consolidada no mercado. Veio pra ficar, e não só em São Paulo, que é o grande propulsor disso, mas em todo o nosso país.
A Eletra hoje já está em mais de 17 cidades e 10 estados brasileiros. Com a liderança do mercado, com 65% dos ônibus elétricos em operação no país, produzidos por nós. Então, esses lançamentos são alguns dos lançamentos que ainda estão por vir até o final do ano e início do ano que vem.
Como você disse, o nosso ônibus rodoviário, que era uma grande vontade da Eletra ter este produto. Agora, conseguimos fazer a modernização e a evolução das baterias, da capacidade energética das baterias. Então, é um produto que eu tenho certeza que vai ser um grande sucesso.
E a grande virada de chave da nossa fábrica que foi nos tornarmos montadora a partir de julho, julho deste mês, com tecnologia e engenharia totalmente Eletra dos chassis. Então, hoje nós produzimos o chassi 100% Eletra e vamos lançar de todos os tamanhos até o meio do ano de 2027.
ADAMO BAZANI
Esse chassi inteligente tem o rodoviário e agora tem essa geração dentro dessa questão do aumento da participação da Eletra no processo produtivo, todos os módulos eletrônicos. Ele consegue identificar que tipo de via ele está trafegando e dosar a energia e dar mais autonomia a isso?
MILENA ROMANO
Consegue, consegue. Ele consegue dar alertas, a gente programa conforme o viário que ele está, qual é a forma, velocidade, aceleração mais eficiente para que essa bateria dure mais, para que o ônibus dure mais. Então, a gente tem todo esse controle que o diesel não tem.
Então, esse é um grande diferencial também da Eletra, essa telemetria embarcada que possibilita tanto a equipe operacional, como a equipe de manutenção e nós da Eletra acompanharmos essa operação minuto a minuto em cada um dos estados que nós temos ônibus em operação.
ADAMO BAZANI
Investimentos, são duas fases de investimento. Ampliação da planta atual, agora, que tem capacidade para cerca de mil ônibus, vai ampliar essa capacidade em um segundo momento, uma segunda planta, é isso?
MILENA ROMANO
Uma segunda planta, é isso. Então, nesse primeiro momento, nós estamos ampliando a nossa fábrica atual, que nos dará a capacidade produtiva de 1.700 ônibus a partir de 2027. E em 2027, nós já iniciaremos a obra da nova fábrica para aumentarmos a capacidade para 3.000 ônibus por ano.
ADAMO BAZANI
Isso é uma geração de mais empregos também?
MILENA ROMANO
Isso é uma geração de 1.000 vagas de trabalho.
ADAMO BAZANI
A eletromobilidade, ela é, além da questão ambiental, ela é uma questão estratégica economicamente, socialmente para o Brasil, até justamente por esses empregos qualificados?
MILENA ROMANO
Com certeza, eu acho que a reindustrialização do Brasil vai começar com a eletromobilidade, com a Eletra em especial, que é uma fabricante 100% nacional, com DNA brasileiro, com engenharia brasileira, mundial brasileira, tecnologia brasileira, e 93% do nosso produto é nacionalizado. Então, a única coisa que vem de fora é o lítio, mas a bateria é feita no Brasil, é montada, tecnologia, tudo brasileiro. Então, isso é uma grande chance da gente exportar esse conhecimento também para a América Latina, até a Europa, Estados Unidos, o que nós estamos desenvolvendo aqui dentro do Brasil.
E, é claro, avançar na mão de obra especializada, capacitada, que é o que nós precisamos para que tenhamos um produto cada vez com mais qualidade, mais engenharia, mais modernidade.
ADAMO BAZANI
Perfeito, a gente agradece bastante a sua participação aqui no Diário do Transporte.
ADAMO BAZANI
Diário do Transporte conversa com a diretora comercial da Eletra, Ieda Oliveira, que vai falar para a gente das novidades da marca 100% nacional na Lat.Bus do ano de 2026. Começando por uma diversificação da atuação da Eletra, inclusive oferecendo mais componentes, é isso?
IÊDA OLIVEIRA
Exatamente, quer dizer, nós estamos aqui cada vez mais nos posicionando como fabricante de chassi 100% brasileiro, tecnologia desenvolvida aqui. E nós estamos aqui, no ano passado nós apresentamos o chassi já com CAT Eletra, esse ano nós estamos também com chassis aqui com CAT Eletra. E a grande novidade é o passo acima que a gente deu, que nós estamos também com tecnologia elétrica de todos os módulos elétricos e eletrônicos de chassi.
Então, os nossos parceiros, né, Mercedes e Scania fornecem o chassi para a gente com toda a parte de suspensão, mas toda a parte elétrica e eletrônica. Agora não, agora vem só com a parte de suspensão, freio, sistema de estabilidade, toda a parte elétrica do chassi é tecnologia 100% elétrica. Por que isso? Porque nós estamos buscando mais eficiência na integração do sistema. Então hoje a Eletra pode dizer que nós dominamos 100% de todo o controle do chassi. Todo o controle elétrico e eletrônico, a rede de câmbio do chassi é nossa. Isso permite o que? Que você consiga ter mais eficiência no sistema.
Nós temos várias oportunidades, né, que permitem. Eu vou subir uma rampa agora, o próprio chassi reconhece que ele está numa rampa e muda o torque para aquela situação de rampa.
ADAMO BAZANI
Ele muda automaticamente, não precisa escolher um modelo para isso, um modelo para aquilo?
IÊDA OLIVEIRA
Não, não tem parametrização mais, essa integração vai permitir que ele reconheça a rota e disponibilize para aquela rota a potência necessária, sem você precisar fazer nenhuma programação.
ADAMO BAZANI
Isso pode resultar em uma autonomia maior?
IÊDA OLIVEIRA
Com certeza, autonomia maior, consumo menor, quer dizer, você vai ter um veículo realmente inteligente, é isso que a gente busca. Então essa integração nos permitiu ter um chassi mais inteligente do ponto de vista de operação mesmo.
ADAMO BAZANI
Então a gente pode dizer que a Eletra entra na era dos chassis inteligentes?
IÊDA OLIVEIRA
Exatamente, é isso, a gente entra na era do chassi que consegue reconhecer o perfil da rota e o que ele tem que disponibilizar, porque ele está linkado ao sistema de tração elétrico. Então o que ele tem que disponibilizar de potência para aquela situação, ou disponibilizar mais, ou economizar, porque ele está em uma rota mais plana.
ADAMO BAZANI
Isso ocorre por causa dos dispositivos, o que faz ele reconhecer?
IÊDA OLIVEIRA
Ele tem um sensor que permite que ele saiba se ele está em uma rampa, se ele está em uma inclinação, se ele entrou em uma lombada, por exemplo, ele tem um reconhecimento, ele consegue reconhecer.
Então a gente está buscando ter o melhor resultado do ponto de vista de eficiência de energia, eficiência energética e do ponto de vista também de desempenho operacional.
ADAMO BAZANI
Iêda, a gente inclusive no Diário do Transporte, noticiou sobre a nova geração dos trólebus, o IMC, 97%, e me chamou bastante a atenção, dado da UITP, que é a União Internacional de Transporte Público, 257 cidades no mundo adotam essa tecnologia, mais de 22 mil veículos e que agora a Eletra já disponibiliza no Brasil, que é o E-Trol, mundialmente é o IMC. A gente já falou bastante dele, mas nunca ninguém viu ele pelado, a gente está aqui com ele agora. Explica para mim, principalmente a parte traseira.
IÊDA OLIVEIRA
Vamos lá, as principais diferenças. Aqui na verdade você está com um chassi 100% elétrico, a ação dele é totalmente elétrica, ele tem bateria, para você ter uma ideia, a mesma bateria que está naquele veículo, que é o veículo de 10 metros, está nesse ônibus, é muito melhor, por quê? De 21 a 23. Aquele para 54 passageiros, esse para 150.
ADAMO BAZANI
Então olha só, a mesma que está naquele, entre aspas, pequenininho, digamos assim, está nesse grandão, por quê?
IÊDA OLIVEIRA
Porque a gente carrega a bateria em movimento, então na própria linha que esse ônibus opera, parte dessa linha tem rede de recarga, não vamos falar mais em rede de trol, é rede de recarga. Não é um fio trol, é uma rede. É uma rede de recarga, então ele para numa marcação da via, aperta um botão, automaticamente essas alavancas pneumáticas se desprendem do ônibus, você tem uma guia na rede, ele conecta a rede, a partir dali ele usa a energia da rede para carregar as baterias e se deslocar. Então você aumentou a autonomia, porque esse carro, mesmo com banco pequeno, ele vai poder rodar 400 quilômetros por dia, porque ele está sempre carregando a bateria. Eu não tenho um carregador dentro da garagem, o que é uma vantagem grande.
Eu gosto muito de falar, eu tenho muito orgulho de ser uma empresa 100% nacional, porque tem muita tecnologia nesse ônibus. O carregador embarcado foi desenvolvido pela nossa engenharia aqui no Brasil.
Essa é a alavanca pneumática. Aqui é o controle da alavanca, que ela é toda controlada. E ali é onde está o carregador. É um carregador de 60 kWh embarcado. Cada vez que ele conecta na rede, ele puxa da rede os 60 kWh mais a energia que ele precisa para se deslocar. Tudo desenvolvido no Brasil. As alavancas em parceria com a Merckx no Brasil. É muita tecnologia, porque imagina que você tem que controlar quando você está regenerando para a bateria, quando você está carregando a bateria, quando você está disponibilizando para a tração. E tudo isso desenvolvido aqui no Brasil pela nossa engenharia. Então é fantástico.
ADAMO BAZANI
E só lembrando, aqui são as alavancas, os pantógrafos, as alavancas, mas ele fica no teto do ônibus. Aqui só está para demonstração.
IÊDA OLIVEIRA
Exatamente. As baterias também no teto.
ADAMO BAZANI
Agora a gente também está com uma outra novidade, que é esse aqui, que é o e-Millennium BRT. Esse já é para a capital paulista. E ele vai rodar nos corredores, no corredor verde da cidade de São Paulo, com uma nova tecnologia de carroceria e parceria com a Caio e tecnologia 100% nacional também?
IÊDA OLIVEIRA
100% nacional. São dois chassis de 21 metros e meio. Os dois com plataforma Mercedes, os dois com tecnologia 100% Eletra. A diferença é que esse é um elétrico puro, então toda a energia dele vem das baterias. E carrega na garagem, né? E esse aqui é um e-troll, que ele também tem banco de baterias, mas ele carrega as baterias em movimento, quando ele está na via.
O Brasil no segmento de ônibus, ele sempre está em evolução, né? Sempre teve aí nesse comando da cadeia produtiva. E eu acho que agora a indústria nacional prova que também na questão da eletrificação, nós temos competência, tanto do ponto geral, né? Da parte de chassi, da parte de tecnologia de tração, da parte de recarga, da parte de carroceria, né? Eu acho que a nossa… E eu costumo dizer, né? A nossa realidade, ela é bruta, né? Nós temos um perfil de rota muito desafiador. Isso é uma… A gente está com o ônibus, com aquele chassi, né. Que é o chassi de 10 metros que a gente está apresentando.
Qual é a novidade daquele chassi? O mesmo powertrain que está naquele ônibus, que é um veículo de 10 metros para 55, dependendo da planta, 58 passageiros, está nesse articulado que vai rodar no corredor. Aí você me pergunta, mas por que vocês fizeram isso? Porque aquele carro é que vai fazer periferia. É ele que vai subir as rampas de 30%. É ele que vai pegar os perfis mais agressivos da cidade.
Então ele está preparado, porque a gente sabe, a periferia de São Paulo é onde você tem as maiores lotações. Então a gente quis mostrar o seguinte. Aquele carro é o que vai para a briga. Ele é o que vai enfrentar buraco, lombada, lotação, ondulação, vai subir comunidade. E os nossos elétricos aqui, muita gente acha que é para corredor, não. Nossos elétricos sobem a comunidade. E aquele carro está preparado para isso.
Então a gente sempre tem esse foco de pensar em quê? Nós produzimos o ônibus pensando na operação.
ADAMO BAZANI
Outra grande novidade, ônibus rodoviário elétrico 100% nacional. Como que vai ser?
IÊDA OLIVEIRA
Isso mesmo, Adamo. Nós estamos já anunciando essa novidade. O ônibus elétrico, a gente entende que o rodoviário tem sempre o desafio das autonomias, mas são muitos nichos. Eu falo que o Brasil, você não tem uma única linha. Você tem várias oportunidades de linhas mais curtas, 300 km, 350 km. Ainda com a opção de recarga de oportunidade. Então nós vamos lançar um rodoviário para atender esse segmento. A gente entende que é importante, vai trazer um benefício do ponto de vista de economia, de operação, de consumo e muito mais conforto. E um serviço melhor para os passageiros que operam nessas linhas.
ADAMO BAZANI
Em relação ao bagageiro, a gente sabe que são diferentes rotas, tem a questão do fretamento e tem a rota regular, que tem diferentes características. Uma rota mais extensa, com maior número de bagagens, uma rota mais curta, com menor número, mas que tem uma necessidade já de bagagem. E muitas empresas rodoviárias regulares trabalham também com encomendas. Como resolver essa questão?
IÊDA OLIVEIRA
A gente começa com o fretamento e com operações com menos bagagem, porque a nossa ideia, nesse caso, é colocar as baterias no piso. Primeiro, porque a gente entende que é um espaço disponível. E como a gente sabe, tecnicamente, no rodoviário não dá para colocar a bateria no teto, por conta da velocidade. Então, a ideia, a gente começa pelo fretamento, utilizando o bagageiro como parte para colocar as baterias, mas a gente já está estudando colocar parte das baterias na traseira do ônibus, utilizar apenas um pequeno pedaço do bagageiro. Então, essa é a nossa meta, buscando esse segmento, porque o Brasil tem muitas rotas e tem muitas oportunidades em rotas de, como eu disse, de 300 a 350 quilômetros, que atenderiam perfeitamente com os elétricos.
ADAMO BAZANI
E é uma rota média. Para a gente ter uma ideia, São Paulo a Campinas tem em torno de 120, então, daria, por exemplo, para um veículo desse, fazer São Paulo a Campinas e de volta. Sem contar que ele vai parar, vai limpar, banheiro sanitário e tudo mais, já pode, pelo menos, receber uma oportunidade.
IÊDA OLIVEIRA
Inclusive, pensando nisso, Adamo, nós estamos aumentando a capacidade de carga das nossas baterias, estamos indo de 150 para 220, exatamente pensando nas recargas de oportunidade. Ou seja, em espaços de 15 minutos, meia hora, você vai poder estender muito a autonomia do ônibus. E no fretamento e no rodoviário, você tem isso. Me parece que em algumas cidades, inclusive, ele é obrigado a parar a cada três horas. Então, isso tudo tem facilitado para que a gente apresente uma solução que atenda a operação, trazendo todas as vantagens da eletrificação, também para o sistema de rodoviário e fretamento.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
Fonte: Diário do Transporte










