A obesidade avança no Brasil e já representa um importante problema de saúde pública. Dados mais recentes do Ministério da Saúde mostram que a frequência de obesidade entre adultos das capitais brasileiras passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024, um crescimento de 118% no período.
O problema está começando logo na infância e adolescência. Segundo o World Obesity Atlas 2026, da Federação Mundial da Obesidade, 38,4% das pessoas entre 5 e 19 anos no Brasil vivem com sobrepeso ou obesidade, quase o dobro da média global, de 20,7%.
“Estamos diante de um problema que começa cada vez mais cedo. O excesso de peso na infância e na adolescência aumenta a possibilidade de manutenção da obesidade na vida adulta e está associado a alterações metabólicas e cardiovasculares. Por isso, prevenção, diagnóstico e tratamento adequado precisam acontecer o quanto antes”, explica o Dr. André Augusto Pinto, cirurgião bariátrico da Clínica Gastro ABC.
Obesidade tem múltiplas causas
A obesidade é uma doença crônica e com muitos fatores. Seu surgimento não está relacionado apenas à alimentação ou à falta de atividade física. Fatores genéticos, hormonais, metabólicos, comportamentais, sociais e econômicos podem contribuir para o ganho de peso e dificultar sua perda. Entre os fatores associados estão o consumo frequente de alimentos ultraprocessados e de bebidas açucaradas, baixo nível de atividade física, sono inadequado e algumas condições de saúde e medicamentos.
“É importante deixar claro que obesidade não é simplesmente falta de disciplina. Existem diversos fatores envolvidos e cada paciente precisa ser avaliado individualmente. Antes de pensar em qualquer medicamento, é necessário entender o histórico, as condições de saúde e os fatores que podem estar contribuindo para o excesso de peso”, afirma o especialista.
Além do impacto sobre a qualidade de vida, a obesidade está associada a um maior risco de doenças como diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral e alguns tipos de câncer.
Aumento da procura pelas “canetas” exige atenção
Nesse cenário de crescimento da obesidade, também aumentou a procura pelos medicamentos popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, que podem ser importantes ferramentas no tratamento de pacientes com obesidade ou diabetes quando há indicação médica, mas o aumento da procura também trouxe preocupação com o uso por conta própria, alterações de dose sem orientação profissional e comprar produtos de origem desconhecida.
A preocupação com o uso inadequado desses medicamentos levou a Anvisa a aumentar o controle sobre a venda. Desde 2025, a receita precisa ficar retida nas farmácias no momento da compra, após o aumento das notificações de efeitos adversos. A segurança desses medicamentos no longo prazo também continua sendo monitorada.
“O problema não está no medicamento quando ele é corretamente indicado e acompanhado. O risco está em transformar uma ferramenta terapêutica em uma solução rápida para emagrecer, sem avaliação médica, sem investigação das causas do excesso de peso e sem acompanhamento durante o tratamento”, alerta o Dr. André.
Uso inadequado pode aumentar o risco de complicações
As “canetas emagrecedoras” podem fazer parte do tratamento da obesidade quando há indicação médica, mas o uso inadequado ou sem acompanhamento pode aumentar o risco de complicações. Entre os problemas de saúde associados ao uso desses medicamentos estão pancreatite, alterações na vesícula biliar, problemas gastrointestinais e alterações nos níveis de açúcar no sangue, além de outras complicações que podem exigir atendimento médico.
“O uso sem acompanhamento pode levar a situações como aumento de dose por conta própria, erros de administração, interrupção inadequada do tratamento ou utilização por pessoas que não têm indicação para aquele medicamento. São situações que podem aumentar os riscos e dificultar o acompanhamento da própria saúde”, ressalta o Dr. André.
Emagrecer não deve ser o único objetivo
Para o especialista, outro problema do aumento da procura pelas “canetas” é a ideia de que o medicamento seria uma solução rápida para atingir determinado peso.
“O objetivo do tratamento da obesidade não deve ser simplesmente perder peso a qualquer custo. Precisamos pensar em saúde, redução dos riscos associados à doença e manutenção dos resultados ao longo do tempo. Quando existe indicação, o medicamento é uma ferramenta dentro de um tratamento mais amplo, que precisa considerar alimentação, atividade física, sono, saúde mental e as demais características daquele paciente”, afirma.
A orientação é que a decisão de iniciar, alterar a dose ou interromper qualquer medicamento para emagrecimento seja tomada com acompanhamento de um profissional habilitado.
“A pessoa não deve começar uma caneta porque alguém conhecido usou, porque viu um resultado nas redes sociais ou porque conseguiu comprar o produto pela internet. O tratamento precisa começar pela avaliação médica. É isso que permite identificar se existe indicação, escolher a estratégia adequada e acompanhar a resposta e possíveis efeitos adversos ao longo do tempo”, finaliza o Dr. André.
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