A chegada do split payment com a Reforma Tributária deve provocar uma mudança que vai além da forma como as empresas recolhem impostos. Ao permitir que os valores correspondentes ao IBS e à CBS sejam separados durante a liquidação financeira da operação, o mecanismo tende a alterar a disponibilidade de recursos no dia a dia e colocar capital de giro, estoques, prazos de recebimento e formação de preços no centro do planejamento das pequenas empresas.
Na prática, recursos referentes aos tributos que hoje podem permanecer temporariamente no caixa antes do recolhimento deixam de estar disponíveis da mesma maneira. Para empresas com ciclos financeiros mais longos ou que mantêm valores elevados imobilizados em mercadorias, a mudança exige uma análise mais ampla da operação.
“O split payment altera a mecânica financeira dos tributos. Em vez de a empresa receber integralmente o valor da venda e recolher o imposto posteriormente, a parcela correspondente ao IBS e à CBS poderá ser segregada durante a liquidação financeira da operação. Na prática, isso reduz o valor que efetivamente entra no caixa naquele momento. O dinheiro que antes passava pela empresa, ainda que temporariamente, poderá não passar mais.
Isso obriga o empresário a olhar com muito mais atenção para capital de giro, formação de preços, prazo concedido aos clientes, negociação com fornecedores e também para a gestão de estoques. Estoque é dinheiro parado. Uma empresa pode até apresentar lucro contabilmente, mas ter dificuldade de caixa porque uma parcela relevante de seus recursos está imobilizada em mercadorias de baixo giro.
Com o split payment, esse tipo de ineficiência tende a ficar ainda mais evidente. Comprar em excesso, manter estoque desnecessário ou financiar um ciclo operacional muito longo passa a ter um custo financeiro ainda maior. A empresa terá de entender melhor quanto compra, quanto vende, em quanto tempo gira seu estoque e em que momento efetivamente recebe pelas vendas.
A Reforma Tributária, portanto, não será apenas uma discussão sobre alíquotas. Ela vai exigir uma gestão mais integrada entre tributação, caixa, estoque, compras, preços, recebimentos e pagamentos. E o caixa sente aquilo que a contabilidade, sozinha, nem sempre consegue contar”, afirma Anderson Diogenes Pavanello, CEO do Meu Contador Online.
Estoque entra na discussão tributária
A relação entre tributação e estoque ganha importância porque o dinheiro utilizado para comprar uma mercadoria permanece imobilizado até que o produto seja vendido e o pagamento efetivamente recebido. Quanto maior esse intervalo, maior tende a ser a necessidade de recursos para sustentar a operação.
Para o pequeno empresário, isso significa que a preparação para a Reforma Tributária não deve ficar restrita ao contador ou à análise das novas alíquotas. Compras, vendas e financeiro precisarão estar cada vez mais conectados para que a empresa conheça seu ciclo operacional e consiga antecipar necessidades de caixa.
Empresas do comércio, por exemplo, poderão precisar observar com mais atenção produtos de baixo giro, volume de compras, prazo negociado com fornecedores e condições oferecidas aos clientes. Uma decisão comercial que aumenta vendas, mas alonga demasiadamente o recebimento ou exige estoque elevado, pode pressionar o caixa.
Reforma exige planejamento antes de 2027
O tema faz parte do trabalho de preparação que o Meu Contador Online (MCO) vem estruturando para sua carteira. A empresa possui 3.943 clientes no Simples Nacional e tem orientado os empresários a analisar os impactos da Reforma de acordo com as características de cada negócio.
A avaliação envolve faturamento, margem, folha de pagamento, perfil de clientes e fornecedores, capacidade de geração de créditos, capital de giro e características da operação. A orientação é evitar decisões baseadas exclusivamente na comparação entre percentuais de impostos.
O cenário também reforça a necessidade de empresas organizarem seus informações financeiras antes da entrada das novas regras. Conhecer o prazo médio de recebimento, o tempo de permanência das mercadorias em estoque, as condições negociadas com fornecedores e a necessidade mensal de capital de giro passa a fazer parte da preparação para a nova dinâmica tributária.
Para o MCO, a Reforma Tributária tende, portanto, a aproximar ainda mais duas áreas que muitas pequenas empresas administram separadamente: contabilidade e gestão financeira. A capacidade de compreender o efeito dos tributos sobre o dinheiro efetivamente disponível será parte das decisões empresariais no novo modelo.
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