Uma indicação apresentada na Câmara Municipal de Santo André, propõe que a prefeitura elabore um plano para substituir gradualmente os ônibus movidos exclusivamente a combustíveis fósseis por veículos de tecnologias mais limpas, em especial modelos elétricos. A Indicação nº 2.824/2026, do vereador Dr. Fabio Lopes, foi protocolada em 8 de junho de 2026, lida e encaminhada ao Executivo no dia seguinte e, até esta segunda-feira, 24 de agosto de 2026, consta na Câmara como “Aguardar Resposta”. Entre as medidas sugeridas estão metas anuais e plurianuais de eletrificação, cronograma para reduzir ônibus a diesel, mecanismos de financiamento, infraestrutura de recarga e até a avaliação de impedir a incorporação de novos veículos movidos exclusivamente a combustíveis fósseis nas futuras renovações da frota.
A discussão retoma um tema que já esteve na agenda pública da cidade. Em julho de 2023, um ônibus elétrico com tecnologia nacional da Eletra foi apresentado na garagem da Viação Guaianazes para testes no sistema municipal. Na ocasião, o então prefeito Paulo Serra afirmou que os planos eram iniciar a eletrificação da frota de Santo André em maior escala a partir de janeiro de 2024, dependendo da disponibilidade de recursos. O veículo tinha tecnologia de tração Eletra, chassi Mercedes-Benz, carroceria Caio eMillennium e baterias e motores WEG. A expansão anunciada, entretanto, não avançou na escala prometida. Hoje, no sistema municipal de Santo André, a Suzantur mantém apenas um ônibus 100% elétrico em operação regular, com tecnologia BYD e carroceria Caio.
Relembre: VÍDEO – Ônibus elétrico em Santo André: planos são de começar a eletrificar frota da cidade em maior escala a partir de janeiro de 2024, diz prefeito
Santo André também teve participação nos primeiros passos de desenvolvimento em campo do Attivi Integral, ônibus 100% elétrico da Marcopolo. Em 2021, a primeira unidade foi testada em parceria com a Suzantur entre a região central e o Terminal Vila Luzita, e o Diário do Transporte acompanhou presencialmente e de perto as avaliações, inclusive o sistema de carregamento. Já o elétrico que permaneceu em operação comercial na cidade é outro veículo: um BYD D9A com carroceria Caio Millennium. O ônibus pertenceu anteriormente à frota da Itajaí Transportes Coletivos, de Campinas (SP), que chegou a operar veículos deste modelo. Após a devolução dos elétricos à fabricante, unidades foram posteriormente adquiridas pela Suzantur.
Relembre: VÍDEO: Saiba como funciona e como é o carregamento do ônibus elétrico da Marcopolo testado pela Suzantur
Proposta prevê metas, financiamento, recarga e redução gradual do diesel
A indicação de Dr. Fabio Lopes pede que o prefeito determine ao setor competente a realização de estudos para a elaboração e implementação de um Plano Municipal de Substituição Gradual da Frota de Ônibus Movidos a Combustíveis Fósseis por veículos baseados em fontes energéticas mais limpas, especialmente os elétricos.
Na justificativa, o vereador defende que a transição seja estruturada como uma política pública de longo prazo, e não apenas pela realização de testes isolados ou pela aquisição eventual de veículos.
O primeiro ponto sugerido é a definição de metas anuais e plurianuais para ampliar a participação de ônibus elétricos na frota. Na prática, a ideia seria estabelecer percentuais ou quantidades a serem alcançados ao longo dos anos, permitindo acompanhar se a substituição efetivamente está avançando.
Outro item é a criação de um cronograma para reduzir gradualmente a utilização de ônibus movidos exclusivamente a diesel. A proposta não estabelece datas ou percentuais neste momento. Esses parâmetros seriam definidos posteriormente pelos estudos técnicos e pelo eventual plano municipal.
O texto também propõe estudos sobre mecanismos de financiamento e subsídios para viabilizar a transição. Este é um dos pontos considerados críticos para a eletrificação dos sistemas de ônibus, uma vez que o custo inicial de aquisição de um veículo a bateria é superior ao de um equivalente a diesel, apesar de haver diferenças nos custos de energia e manutenção ao longo da vida útil.
Um dos pontos de maior impacto da indicação é a sugestão para que seja avaliada a possibilidade de vedar, em futuras renovações de frota, a incorporação de novos ônibus movidos exclusivamente a combustíveis fósseis. Isso não significa que exista, neste momento, uma proibição para a compra de ônibus a diesel em Santo André. A indicação apenas propõe que essa hipótese seja estudada para eventual adoção futura.
Também é prevista a implantação e ampliação da infraestrutura necessária ao abastecimento ou recarga dos veículos. No caso dos ônibus elétricos a bateria, uma mudança em maior escala exige planejamento das garagens, disponibilidade de energia, carregadores, subestações e definição da estratégia de recarga de acordo com a autonomia e a programação operacional das linhas.
A proposta pede ainda integração entre a política de renovação da frota e os instrumentos municipais de planejamento urbano, mobilidade e sustentabilidade.
O último eixo listado é a criação de indicadores e mecanismos permanentes de monitoramento e transparência, para que seja possível acompanhar publicamente as metas e os resultados obtidos com a transição.
Teste da Eletra em 2023 e promessa de eletrificação a partir de 2024
A proposta apresentada em 2026 ganha contexto diante de iniciativas anteriores realizadas em Santo André que não resultaram, até agora, numa eletrificação em maior escala.
Em 3 de julho de 2023, a Prefeitura de Santo André e a Viação Guaianazes apresentaram um ônibus elétrico de fabricação nacional para avaliações no sistema municipal.
O modelo, do tipo padron e com 12,1 metros de comprimento, reunia tecnologia elétrica da Eletra, empresa sediada em São Bernardo do Campo (SP), chassi Mercedes-Benz, também produzido no ABC Paulista, carroceria Caio eMillennium e baterias e motores elétricos WEG.
Inicialmente, o ônibus percorreu sem passageiros o trajeto da linha B21, entre Cidade São Jorge e Campestre, para análise das condições viárias, desempenho e dimensionamento das baterias. A previsão era que posteriormente fossem realizadas avaliações em serviços mais extensos e com maior demanda.
Na apresentação, o então prefeito Paulo Serra afirmou que os testes ajudariam a definir a modelagem operacional e econômico-financeira e disse que o município pretendia iniciar a colocação de ônibus elétricos em maior escala a partir de janeiro de 2024, de acordo com a disponibilidade de recursos.
A eletrificação em escala, contudo, não se concretizou nos moldes anunciados naquela ocasião. A frota municipal passou por outras renovações, inclusive com ônibus a diesel dotados da tecnologia de emissões Euro 6, mas esse processo não deve ser confundido com eletrificação.
Os motores Euro 6 possuem limites de emissões significativamente mais baixos do que gerações anteriores de veículos a diesel, mas continuam utilizando combustível fóssil. Assim, renovação de frota e eletrificação são processos diferentes.
Santo André recebeu em 2021 primeira unidade do Attivi elétrico da Marcopolo
Antes mesmo do teste da Eletra, Santo André já havia servido de campo para o desenvolvimento e avaliação de um ônibus elétrico que posteriormente se tornaria um dos principais produtos nacionais do segmento.
Em outubro de 2021, a Suzantur e a Marcopolo iniciaram testes com a primeira unidade do ônibus 100% elétrico da fabricante gaúcha. O veículo percorreu um trajeto semelhante ao da linha TR 103, entre o Terminal Santo André e o Terminal Vila Luzita, inicialmente sem transportar passageiros.
O projeto tinha conceito integral, reunindo chassi, carroceria, sistema elétrico e baterias dentro de uma solução desenvolvida pela Marcopolo e seus fornecedores.
O Diário do Transporte esteve presencialmente nos testes e mostrou, em novembro de 2021, tanto a operação do veículo como o carregador móvel instalado no Terminal Vila Luzita. Segundo o motorista ouvido na ocasião, o consumo registrado nos testes era inferior a 4% da carga das baterias em um percurso de ida e volta de aproximadamente 18 quilômetros.
A Marcopolo confirmou posteriormente que o modelo, denominado Attivi Integral, teve desenvolvimento próprio e começou a ser testado no ano anterior justamente pela Suzantur em Santo André. A produção comercial foi iniciada posteriormente.
Assim, Santo André esteve entre os primeiros ambientes de avaliação prática do projeto antes de o Attivi Integral chegar ao mercado e passar a operar em outros sistemas brasileiros.
Único elétrico da Suzantur em Santo André é BYD com carroceria Caio
O veículo elétrico que permaneceu efetivamente no transporte regular de passageiros de Santo André não é o protótipo da Marcopolo nem o ônibus da Eletra apresentado em 2023.
Trata-se de um ônibus com chassi elétrico BYD D9A e carroceria Caio Millennium, incorporado pela Suzantur ao sistema da Vila Luzita.
O modelo tem origem em uma frota que anteriormente circulou pela Itajaí Transportes Coletivos, de Campinas. A empresa campineira operou ônibus Caio Millennium com chassis elétricos BYD D9A antes de os veículos serem devolvidos à fabricante. Posteriormente, a Suzantur adquiriu unidades provenientes desta operação para utilização nos sistemas municipais em que atua no ABC Paulista.
Em Santo André, o veículo chegou a ser destinado à linha TR 103, entre o Terminal Vila Luzita e a região central. O Diário do Transporte mostrou em julho de 2023 que a intenção da Suzantur era colocá-lo em operação definitiva, diferentemente dos modelos anteriores que haviam participado apenas de avaliações.
Apesar dessas experiências iniciadas ainda em 2021, a cidade não passou por uma substituição em escala da frota a diesel por veículos a bateria.
Indicação está aguardando resposta da prefeitura
A Indicação nº 2.824/2026 foi protocolada em 8 de junho e encaminhada ao plenário da Câmara.
No dia 9 de junho, houve a leitura e o encaminhamento da proposição. A Câmara posteriormente elaborou ofício para comunicar formalmente a Prefeitura de Santo André.
Desde 10 de junho, o processo aparece no sistema legislativo na fase “Aguardar Resposta”, no Núcleo de Protocolo e Informações. A situação geral aparece como “Tramitando”.
Veja a tramitação: Indicação nº 2.824/2026 no Câmara Sem Papel
O documento é justificado pelo vereador como uma forma de criar uma política de longo prazo para modernização da mobilidade e redução dos impactos ambientais do transporte coletivo.
Entre os argumentos apresentados estão a redução de gases de efeito estufa, material particulado e outros poluentes atmosféricos, além da diminuição do ruído e de despesas de manutenção dos veículos.
A indicação sustenta ainda que a redução da poluição pode produzir reflexos sobre a saúde pública e que, por Santo André fazer parte de uma região metropolitana densamente urbanizada, os efeitos ambientais da substituição da frota ultrapassariam os limites municipais.
Outro argumento é financeiro. Segundo a proposta, a existência de um plano estruturado pode ajudar Santo André a buscar recursos estaduais, federais e internacionais destinados a mobilidade sustentável, inovação tecnológica e enfrentamento das mudanças climáticas.
O texto cita como referência a experiência da cidade de São Paulo e a Política Municipal de Mudança do Clima, instituída pela Lei nº 14.933, de 2009, que passou a estabelecer instrumentos relacionados à redução das emissões no transporte coletivo.
O que muda entre indicação, projeto de lei e projeto de lei complementar
Apesar de propor medidas que podem provocar mudanças importantes no sistema de ônibus, a matéria apresentada por Dr. Fabio Lopes não é um projeto de lei.
Uma indicação é uma sugestão do vereador ao Poder Executivo para que determinada providência seja estudada ou adotada. O Regimento Interno da Câmara de Santo André define a indicação como a proposição pela qual são sugeridas às autoridades municipais medidas de interesse público. Ela independe de deliberação do plenário e, depois da leitura, é encaminhada à autoridade competente.
Por isso, a Indicação nº 2.824/2026 não cria neste momento metas obrigatórias para ônibus elétricos, não proíbe a compra de ônibus a diesel, não determina gastos públicos e não obriga a prefeitura a implantar carregadores. O Executivo pode acolher a sugestão integralmente, parcialmente, realizar estudos ou não executar as medidas propostas.
Um projeto de lei, por outro lado, é uma proposta destinada a criar, alterar ou revogar uma lei municipal. Depois de apresentado, passa pelo processo legislativo, que pode incluir análise das comissões, discussão e votação em plenário. Caso seja aprovado, segue ao prefeito para sanção ou veto. Somente após a conclusão desse processo e a publicação é que a norma passa a integrar a legislação municipal. A iniciativa pode ser de vereadores, do prefeito ou, nos casos previstos, da população, mas determinados assuntos são reservados ao chefe do Executivo.
Já o projeto de lei complementar é utilizado para matérias que a Lei Orgânica reserva especificamente a esse tipo de norma. Em Santo André, a Lei Orgânica determina que as leis complementares são as relacionadas aos códigos e estatutos municipais. A aprovação exige maioria absoluta dos integrantes da Câmara, diferentemente da regra geral de maioria simples aplicável a muitas matérias ordinárias.
Assim, a indicação agora em tramitação funciona como um pedido político e administrativo para que a Prefeitura de Santo André transforme a eletrificação dos ônibus em planejamento permanente. Para que algumas das propostas sugeridas se tornem efetivamente obrigatórias, podem ser necessários posteriormente atos do Executivo, alterações em contratos e regras do transporte ou projetos de lei, dependendo da medida adotada.
O ponto central da proposta é justamente passar das experiências pontuais realizadas desde 2021 para uma política com metas, prazos, fontes de financiamento, infraestrutura e acompanhamento público dos resultados.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes
Diário do Transporte










